domingo, 15 de fevereiro de 2015

O CARNAVAL DO REENCONTRO

Lina era uma fada que acreditava no amor e havia entregado o seu coração a Marcel, um jovem elfo. Mas o senhor dos destinos os separou, porque eles se devotaram única e exclusivamente ao amor que sentiam e se esqueceram de suas responsabilidades em relação aos lugares paradisíacos que juraram proteger.

Obedecendo ao comando do senhor dos destinos, os ventos sopraram e provocaram uma tormenta. Lina e Marcel foram surpreendidos pela tempestade e não tiveram tempo de buscar refúgio. Eles se abraçaram para evitarem a separação, mas a força dos ventos era terrível e os elevou ao céu. O afetuoso abraço foi rompido, quando cada um deles se viu preso em um redemoinho, e foram conduzidos para direções opostas. Enquanto eles se afastavam, com os braços estendidos e a visão embaçada pelas lágrimas, eles ouviram o som de uma voz que estrondava no ar: “Lina e Marcel, a sua insensatez os afastou de seus destinos e os conduzirá a caminhos tortuosos. É verdade: o que vocês chamam de amor, eu rotulo de insensatez. Eu não posso forçá-los a recobrarem a razão, mas posso evitar que se reencontrem. Contudo, se a teimosia de vocês for maior do que a prudência, apenas no mundo dos humanos vocês poderão se unir novamente.”

Anos e anos se passaram, e a saudade dilacerava aqueles dois corações apaixonados. Era sempre a mesma pergunta que os assombrava: “Como poderemos nos reencontrar no mundo dos humanos, se eles se assustariam com a nossa presença?!” Certo dia, porém, Lina teve a oportunidade de se aproximar de um local onde as pessoas se vestiam com roupas extravagantes e coloridas. Era carnaval. Os rostos se escondiam atrás de máscaras, e a alegria parecia substituir a estranheza. Lina pensou: “Estão todos se divertindo tanto que nem terão tempo de notar a minha presença.”


Lina encorajou-se a entrar no salão onde as pessoas fantasiadas cantavam e dançavam alegremente. O coração de Lina disparou quando os seus olhos esbarraram em um elfo solitário que também tivera a ideia de se reunir àquela multidão. Lina sorriu e foi ao encontro de Marcel. 



quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

O CARNAVAL DO LIXO





 

O proprietário do circo, que ficava instalado no centro de um grande terreno localizado ao lado da praça, orgulhava-se dos glamorosos desfiles que ele organizava para o carnaval.

Apenas os animais permaneciam no circo nessa data. O dono do circo, elegantemente vestido, caminhava na frente, acompanhado dos artistas, dos funcionários e da banda, nada afinada, mas impecavelmente uniformizada.   

Os foliões se aglomeravam para assistir àquele espetáculo que lhes era oferecido gratuitamente, em agradecimento à acolhida e à audiência que o circo sempre recebera.

O desfile do circo já havia se tornado uma tradição, e ninguém conseguiria imaginar o carnaval sem a beleza, a alegria e a descontração que aquele grupo proporcionava. Mas houve um ano em que os habitantes daquela cidade ficaram profundamente descontentes com a “brincadeira de mau gosto” que presenciaram. O dono do circo havia se fantasiado de palhaço e trazia um tubo de papelão ao redor de seu corpo, simbolizando uma lata de lixo. Os artistas e funcionários também caminhavam como se estivessem dentro de uma lata de lixo, usando fantasias que causaram nojo até mesmo nas crianças. Os homens se vestiram de rato, e as mulheres de barata.  A banda também não parecia a mesma de outros carnavais: o maestro e os músicos dispensaram os uniformes e vestiram-se com roupas velhas, sujas e rasgadas. As alegres marchinhas de carnaval também foram substituídas por marchas fúnebres.

A indignação apoderou-se de várias pessoas, gerando vaias e gritos de protesto. Na metade do trajeto, o dono do circo interrompeu o desfile e fez um sinal para que todos ouvissem o que ele tinha a dizer: “Cidadãos de Ruas Limpas, aposto que vocês sentem orgulho do nome de sua cidade!... As ruas desta cidade, realmente, causariam inveja às cidades vizinhas!... Infelizmente, eu e os funcionários do meu circo não podemos nos orgulhar do espaço ao redor do nosso local de trabalho, porque é lá que vocês depositam o seu lixo, e nós, atualmente, estamos sendo forçados a conviver com ratos e baratas!... Se o espetáculo que presenciaram hoje ofendeu sua visão, conscientizem-se da necessidade de não jogarem o seu lixo na propriedade dos outros para que, no próximo ano, possamos lhes oferecer uma apresentação mais agradável.”

Quando o dono do circo encerrou o seu discurso, ele e sua equipe não se dirigiram à praça para se divertirem com os foliões. Em vez disso, eles retornaram ao circo. No carnaval do ano seguinte e em todos os carnavais depois daquele, os desfiles planejados para os habitantes de Ruas Limpas voltaram a ser glamorosos e inesquecíveis.





O ESTRANHO SONHO DO GAROTO QUE MALTRATAVA OS ANIMAIS






Era uma vez um garoto muito mau. Ele era briguento, não respeitava ninguém e maltratava os animais. Sua diversão favorita era amarrar latas no rabo de gatos e cachorros. Ele dizia que adorava o estardalhaço que eles faziam.

Certo dia, ele teve um sonho estranho. Ele sonhou que havia morrido e fora parar no céu dos animais. Quando um cachorro enorme vestido de anjo foi ao seu encontro, ele perguntou: “O que estou fazendo aqui?!... Embora eu adore me divertir, eu prefiro ir para o lugar onde ficam as pessoas.”

O cachorro vestido de anjo respondeu: “Você está tendo a oportunidade de se desculpar com os animais que prejudicou.” O garoto soltou uma gargalhada antes de dizer: “Você deve estar brincando!... Se eu tivesse prejudicado alguém, eu até poderia pedir desculpas, se quisesse!... Mas eles não são gente, são animais. São apenas cachorros e gatos!... Você é apenas um cachorro, e eu não perderei o meu tempo com você. Por que você não tira essa fantasia e vem brincar comigo?!... Onde está o seu dono, cãozinho?!...”

O cachorro vestido de anjo não se sentiu ofendido com as provocações. Sem alterar o tom de voz, ele disse: “Ria, você pode rir à vontade, garoto!... Você não morreu. Saiba que isto é apenas um sonho. Mas, antes de acordar, você sentirá na pele todo o sofrimento que causou aos animais.”

O garoto teve que se calar, porque a nuvem que havia sob seus pés abriu-se, e ele começou a cair. Durante a queda, ele ficou alarmado ao perceber que o seu corpo, lentamente, assumia a forma do corpo de um cachorro. Ele gritou. Gritou por socorro. Gritou por clemência. Pediu perdão a todos os animais que havia prejudicado. E continuou gritando, desesperado.

O garoto só parou de gritar quando ouviu a voz de sua mãe, pedindo-lhe que se acalmasse. Ele ficou pensando, pensando... Ele se perguntava se aquele sonho havia sido um pesadelo ou uma advertência. Se tivesse sido apenas um pesadelo, certamente, não teria sido tão vívido, tão real!... Ele começou a acreditar que aquele sonho tinha sido um aviso para que ele refletisse sobre sua conduta inadequada.

Quem me contou essa história estava com pressa, porque precisava pegar o ônibus e não teve tempo de dizer se o garoto passou a tratar os animais com gentileza. Eu espero que o garoto tenha seguido a intuição e tenha aprendido a respeitar não só os animais mas também as pessoas.



quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O ELFO AZUL E O LAGO ENCANTADO




O Elfo Azul, guardião do lago que repousava no coração da floresta das árvores reluzentes, não conseguia desprender os olhos das águas turvas do lago. Ele sentia que algo estava errado!... Ele precisava mergulhar naquelas águas traiçoeiras para descobrir o que havia se escondido em suas profundezas. Ele hesitava, porque temia ser aprisionado pelas algas gigantes. Ele levantou e começou a se afastar da margem do lago, mas a intuição, forte demais para ser abandonada, o obrigou a voltar e fazer o que precisava ser feito: mergulhar em direção a um destino incerto.

Imerso naquele líquido viscoso, embora ele conseguisse manter os olhos abertos, ele sabia que não deveria confiar no que eles lhe mostravam: havia uma mulher belíssima tentando se desvencilhar das algas que a prendiam como se fossem poderosas correntes. O Elfo Azul pensou: “A jovem não é real. As algas estão criando essa ilusão apenas para me atrair.”

O olhar da jovem, no entanto, fazia com que ele se esquecesse do perigo e começasse a desejar que ela realmente estivesse ali para que ele pudesse salvá-la. Embora ele nunca a tivesse visto, ele teve a impressão de que sempre desejara conhecê-la. Ele já estava se aproximando da jovem quando lembrou que o lago era encantado. Ele recuou, mas a atração que aquele olhar exercia sobre ele era mais forte do que o seu desejo de permanecer livre.

Fosse a jovem real ou não, ele a amava e precisava libertá-la. Ele sabia que aquele desatino seria o seu fim. Pensou ainda em resistir e abandonar o lago, mas de que adiantaria continuar vivendo livre na floresta, se continuaria acorrentado à lembrança daquele olhar que fez aqueles poucos minutos valerem mais do que os séculos que ele já havia vivido?!...

Revestindo-se de coragem, o Elfo Azul se aproximou da jovem esperando pelo pior, mas surpreendeu-se quando as algas a libertaram. Acreditando ter sido traído, ele murmurou: “Fui tolo em não desconfiar de você!... Apesar disso, prefiro ser seu escravo a passar a eternidade acorrentado pelas algas.”

O coração do Elfo Azul revestiu-se de esperança quando a jovem respondeu: “Eu não o traí... Eu apenas precisava saber se o seu amor seria forte o bastante para convencê-lo a aceitar viver parte de sua vida no fundo deste lago. Eu sou uma sereia, e sereias não passeiam pela floresta. O amor uniu os nossos corações, e nada poderá separá-los.”




sábado, 1 de novembro de 2014

O BONDOSO REI E O FILHO DA RAINHA



Era uma vez um rei justo e bondoso. Embora ele tivesse poderes mágicos, ninguém o temia porque ele usava sua magia apenas em benefício de seu reino. Os seus súditos o amavam e ficaram imensamente felizes quando ele anunciou o seu casamento com uma mulher que parecia nutrir por ele sincera afeição.

Oito meses após a promissora união, uma criança nasceu. Os anos se passavam, o príncipe crescia, e os desentendimentos entre o rei e a rainha se tornavam mais frequentes a cada dia, porque o rei não aprovava o excesso de mimos que a rainha dispensava a ele.

Certo dia, o rei disse à rainha:

– Nossos súditos têm todo o direito de expressar o desagrado e o receio que a conduta de nosso filho lhes causa. Não podemos puni-los por reagirem quando ele os sobrecarrega com suas exigências descabidas.

A rainha respondeu com altivez:

– Esta nossa discussão e todas as outras seriam desnecessárias se você se dispusesse a fazer o que sugeri desde o início: Convença o seu povo a respeitá-lo e a cumprir suas ordens sem questioná-las.

Movendo a cabeça para os lados, o rei exclamou:

– Eu discordo, porque isso está errado!... Podemos convencer os nossos súditos a tolerarem o nosso filho, mas o respeito deles é algo que ele terá que conquistar sozinho!...

A rainha rebateu com frieza:

– Isso é o que você pensa. Mas saiba, meu caro, que eu não penso como você!... Poder é sinônimo de admiração e respeito. Felizmente, de você, ele só herdou a magia.

Mais uma vez a discussão se encerrava aumentando a distância que havia se estabelecido entre o casal. O rei se entristecia porque a insatisfação parecia estampada no rosto de seus súditos. O seu filho, na mais leve contrariedade, erguia os braços e evocava os seus poderes mágicos. O céu escurecia, e os estrondos de raios e trovões eram ouvidos em todo o reino. As pessoas, com a respiração suspensa, tremiam de pavor enquanto a chuva fria e cortante molhava suas vestes.

Houve um dia em que o bondoso rei disse à rainha:

– A submissão do meu povo aos desmandos do nosso filho ultrapassou o limite do tolerável!... Hoje mesmo ele será levado para o...

Sem permitir que o rei completasse a frase, a rainha afirmou:

– Será você quem ficará recluso naquele labirinto no interior da floresta, e não o meu filho. O meu filho, sim, o meu filho, porque ele é só meu!... Eu já estava grávida quando nos casamos. A magia que ele herdou do mago cujo nome não pode ser revelado é muito mais poderosa do que a sua. Você se curvará diante da minha vontade e diante do poder do meu filho.

Naquele mesmo dia, o príncipe se coroou rei e ordenou que o antigo rei fosse aprisionado no labirinto. O descontentamento, a pobreza e a miséria substituíram a paz e a prosperidade que o antigo rei construíra. As pessoas começaram a fugir para os reinos vizinhos, e a fama do príncipe cruel, que havia se coroado rei, espalhou-se rapidamente.

 Meses depois, sem que a rainha pudesse adivinhar o motivo, os poderes de seu filho se extinguiram, e o povo começou a desobedecê-lo. Dentro do castelo, a situação não era diferente. Os sábios ordenaram ao chefe da guarda real que providenciasse a partida da rainha e de seu filho para um reino distante. Quando a rainha e o falso rei partiram, o chefe da guarda recebeu uma nova ordem que o alegrou profundamente: ele deveria chefiar uma escolta cuja missão seria libertar o verdadeiro rei e conduzi-lo de volta ao seu trono.